A médica autista que está salvando vidas no hospital de campanha de Porto Velho




Em carga horária de 80 horas semanais, Larissa Assunção é diretora clínica do hospital e também atende aos pacientes em plantão.

Isis Capistrano

Colaboração para o TAB, de Porto Velho

A covid-19 mantém o estado de Rondônia em alerta vermelho. No Hospital de Campanha Zona Leste de Porto Velho, montado no antigo Cero (Centro de Reabilitação de Rondônia), a médica Larissa Rodrigues Assunção, 26, gerencia protocolos e define pautas técnicas junto ao governo estadual. Uma hora, ela está atualizando prontuários e dando ordens. Dali a pouco, faz uma intubação. Mais tarde, conversa com o secretário estadual da Saúde da cidade. Em carga horária de 80 horas semanais, ela é diretora clínica do hospital e também atende aos pacientes em plantão.

Ser muito jovem para o cargo não é a questão mais importante: Larissa foi diagnosticada com transtorno de espectro autista na infância. A família logo percebeu que havia algo diferente acontecendo. Ela vivenciou bullying e trocou muito de escola: tinha dificuldades de relacionar-se, interagir com colegas e professores, fazer contato visual com alguém. E era, além de tudo, uma criança brilhante. 


Larissa tenta compensar o embaraço nesse campo com outros sentidos. A medicina foi, talvez, sua forma de lidar com as barreiras internas com que nasceu.



A reportagem do TAB conversou com a médica por mensagens e pessoalmente, do lado de fora do Hospital de Campanha. Com cerca de 1,60, miúda de compleição física, Larissa sorri por trás da máscara e confessa achar “super estranho” dar entrevistas. Aos poucos, foi confiando e se abrindo à conversa. A voz grave e bonita sai fácil, fluida, com eloquência. A impressão que fica é que Larissa consegue ver as coisas de forma macro, em visão panorâmica. Apesar da dificuldade de fazer contato visual, ela fala olhando nos olhos — com um tique discreto de esfregar as sobrancelhas.

A superdotação intelectual ajuda a entender parte de seus feitos. Ela entrou para a faculdade de ciências sociais da UFU (Universidade Federal de Uberlândia) em 2011, com apenas 14 anos. Compreender a mente humana motivou sua mudança de Uberlândia (MG) para Porto Velho (RO), ao passar em medicina na Unifimca (Centro Universitário Aparício de Carvalho), quatro anos depois, missão que considerou “tranquila”. Na sequência, emendou uma pós-graduação em neurociências pela Universidade Duke, nos EUA. Hoje finaliza duas especializações — neuroimagem pela Universidade Johns Hopkins (EUA) e psiquiatria pela PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul).


“Decidi fazer medicina em Rondônia pois tenho paixão pela Amazônia, pela parte antropologicamente rica de uma cultura tão particular. Aproveitei que tenho uma tia médica aqui, e de súbito, em 2 meses estudei um pouco e ingressei”, conta à reportagem.

Larissa chegou a estudar cerca de oito horas por dia para concorrer à residência na área de neuropsiquiatria, uma das mais concorridas do país. Passou no exame para as áreas de neurologia, neurocirurgia e psiquiatria, mas optou por atuar na linha de frente da covid-19 na cidade onde se formou em medicina. Entende que as especializações estão interligadas ao momento que vive, porque infectados com covid-19 também têm desfechos neurológicos e demandas psiquiátricas.

“A pandemia me transformou. Sempre fui empática em acolher e ajudar, mas a vivência atual modificou a forma como enxergo o mundo e as minhas reais necessidades. Não tive outra escolha a não ser ficar e trabalhar. Meu trabalho também é fonte de sustento à minha família. Ajudo meu irmão, que também estuda medicina”, explica a médica, que se formou antecipadamente e logo passou a atender em três lugares: Samar, Hospital das Clínicas da cidade e a UTI do Hospital de Campanha, em Rondônia.
Nerd com hiperfoco

Rondônia está sem leitos disponíveis em unidades públicas e privadas. Cerca de 30 pessoas aguardam na lista de espera da rede pública. O Hospital de Campanha onde Larissa trabalha conta com 50 leitos de UTI e 10 de leitos clínicos, todos ocupados ou já reservados. Para atender aos pacientes, ela gerencia o plantão clínico e lida com a instabilidade de uma realidade difícil de digerir.

O médico português Luís Moreira Gonçalves, 36, atendeu ao chamado emergencial do Ministério da Saúde e chegou a Rondônia no início de fevereiro. O contato com a médica se deu ainda em São Paulo, onde ele reside. Quando a conheceu, surpreendeu-se com a pouca idade da nova chefe. Em pouco tempo, o susto deu lugar à admiração.

“Larissa exerce suas funções com brilhantismo. Eu já a vi fazer coisas interessantíssimas, como uma traqueostomia com bisturi em uma urgência. Ela conseguiu abrir a cartilagem acima da tireoide de um paciente para obter uma via de acesso. Trata-se de um procedimento de alta qualidade e que foi feito em uma situação de urgência, em meio à calamidade de saúde pública”, narrou.

Entre os colegas, é comum a associação da diretora com Shaun Murphy, o médico fictício da série “The Good Doctor”, que tem autismo e utiliza seus talentos para salvar a vida de pacientes.  

O motorista de ônibus Anderson Assis da Silva, que ficou 45 dias internado no Zona Leste de Porto Velho (RO)

Larissa justifica os feitos por ser “meio nerd”, mas reconhece a dupla responsabilidade de ter um CRM (Cadastro de Registro Médico) e integrar a direção clínica do hospital. “Eu tenho compromisso como médica e com o corpo clínico que segura a barra de tantos pacientes que precisam de cuidado. Todos os profissionais na linha de frente atualmente vivem uma sobrecarga de trabalho.”
Fora do hospital, mas com ele na cabeça

A rotina alerta, provocada pelo trabalho nula UTI, impacta a vida pessoal. Ao chegar em casa e fechar os olhos, Larissa ainda ouve o ruído dos ventiladores e monitores. Ela sabe que o excesso de conexão é prejudicial. Aprendeu a distrair. Toca instrumentos, lê, desenha, limpa a casa e curte a companhia de Pipo, seu cachorrinho.

Larissa acredita que a pandemia não define o seu universo, apesar de fazer parte de sua realidade. A neuropsiquiatria continua em seu radar, por meio das especializações e, nos intervalos, assiste a vídeos no celular ou conversa com algum colega sobre um tema interessante. Ela também é ativa pela causa de quem tem TEA (transtornos do espectro autista).  

Larissa Assunção atende em ambulância na frente do Hospital de Campanha Zona Leste
Imagem: Ísis Capistrano/UOL

Cada faceta de sua própria história é descrita com calma, mesmo que uma série de compromissos a aguardem para dali a pouco. “Contar minha história é uma coisa muito estranha. Tudo aconteceu rápido na minha vida. Na minha infância e adolescência, algumas pessoas me viam como algo extraordinário, com uma ‘super mente’, e outras me viam exatamente de modo oposto. Hoje, isso não me incomoda. O autismo faz parte de mim, mas não me define e não limita o meu potencial.”

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